Livro elucida história econômica da Comarca do Rio das Mortes

Vista de São João del-Rei, Rugendas, 1824

Devido ao seu passado de riquezas, acumuladas desde o século XVIII com o chamado Ciclo do Ouro, a antiga Comarca do Rio das Mortes, cuja sede era São João del-Rei, se tornou um dos mais importantes centros econômicos do interior do Brasil, superando, no século XIX, o movimento de capitanias como o Rio Grande do Sul e São Paulo. Pesquisador com significativa produção em história econômica e social de Minas Gerais nos dois primeiros séculos, o professor Afonso de Alencastro Graça Filho (Decis) acaba de publicar, pela Paco Editorial, seu novo livro, intitulado O amanho do ouro: elites econômicas na antiga Comarca do Rio das Mortes, do século XVIII ao XIX. Na obra, analisa a formação de fortunas na região, caracteriza a atividade econômica no período e estabelece patamares de riqueza. A pesquisa revela, inclusive, informações sobre a próspera situação financeira de alguns líderes da Inconfidência Mineira.

Em entrevista ao site da UFSJ, o professor Afonso de Alencastro explica aspectos de sua nova publicação, que em breve será comercializada na loja virtual da editora ou no site da Amazon.

Como você classifica esse novo livro?
Prof. Afonso de Alencastro: O título é uma metáfora com as fazendas mistas, como conceituo essas unidades agrárias dedicadas à agropecuária e à mineração. Mas classifico esse novo trabalho como uma contribuição para melhor entendimento da dinâmica econômica regional e das atividades que exerceram a sua elite. Com isso, consegui inserir a riqueza de várias lideranças da Inconfidência Mineira comprovadamente como as maiores da Capitania. Não restam dúvidas de algo já sabido, que foi um movimento da elite econômica e social, com participação majoritária daqueles que residiam na Comarca do Rio das Mortes.

Qual o contexto histórico e econômico que a sua pesquisa focaliza?
Prof. Afonso de Alencastro: Minha pesquisa não se restringe ao recorte regional, da Comarca do Rio das Mortes, mas tenta dialogar com a historiografia de outras regiões do país, embora esteja centrada na documentação original da antiga comarca do Rio das Mortes, basicamente à de São João del-Rei e São José do Rio das Mortes (hoje, Tiradentes). O trabalho procura estabelecer algumas análises comparativas com outras capitanias e províncias, sobre alguns aspectos econômicos fundamentais, tais como total dos valores de mercadorias remetidas por Minas Gerais, organização do sistema de crédito ou fortunas.

O que representavam a Comarca do Rio das Mortes e a cidade de São João del-Rei nesse contexto?
Prof. Afonso de Alencastro: O livro se propõe a contextualizar a dinâmica variada da comarca e de São João del-Rei, se opondo às teses da decadência generalizada em Minas após a crise do ouro, tema que já havia tratado em minha tese de doutorado e em meu livro Princesa do Oeste. O ponto central desse trabalho é estabelecer as atividades econômicas e os patamares da riqueza originada na região da Comarca do Rio das Mortes. Nesse estudo, concluo que a Comarca se situou num nível médio nessa concentração das fortunas, em relação às capitanias do Rio de Janeiro e Bahia, mas melhor aquinhoada do que as capitanias do Rio Grande do Sul e São Paulo, na segunda metade do século XVIII. Recupero, aqui, a importância da mineração para as grandes fortunas da Comarca, conjugada às outras atividades, como as lavouras, engenhos e a criação do gado.

Em 2002, você publicou o livro A Princesa Do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São João del-Rei (1831-1888), que tratava de elucidar a falsa noção de que essa cidade empobreceu com o fim da mineração. Esse novo trabalho é uma continuidade daquelas pesquisas?
Prof. Afonso de Alencastro: De certa forma, aprofunda as questões colocadas inicialmente em meu doutoramento. Tanto em meu livro anterior como neste, busquei estabelecer melhor a dinâmica econômica regional por um período longo. No primeiro trabalho, foram as conjunturas do século XIX. No Amanho do Ouro, tentei revisitar todas as informações importantes para o mesmo exercício de estabelecer a dinâmica regional. Com isso, volto a reafirmar a mesma hipótese para a região e apresento algumas divergências a trabalhos já consagrados pela historiografia sobre a região. Minha intenção não é suscitar polêmicas, mas contribuir para esse melhor conhecimento regional e de Minas Gerais no panorama dos séculos XVIII e XIX.

As pesquisas de O amanho do ouro foram feitas quando e quais os acervos pesquisados?
Prof. Afonso de Alencastro: As pesquisas contidas neste livro resultaram da minha produção como pesquisador de produtividade do CNPq, acrescida de minha tese para obtenção da condição de professor titular, defendida em 2019. Lancei mão de diversas fontes, da mesma forma como a atual historiografia brasileira tem procedido. Os inventários post-mortem e testamentos do Arquivo Histórico do IPHAN de São João del-Rei foram fundamentais. Além deles, a documentação fiscal da Casa dos Contos, do Arquivo Público Mineiro, as listas de registros de passagens entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, gentilmente cedidas pelos pesquisadores João Fragoso (UFRJ), Roberto Guedes (UFRRJ) e Roberto Martins (UFMG), e a documentação da Câmara de São João del-Rei, depositada na Biblioteca Municipal Baptista Caetano.


Publicada em 25/02/2021
Fonte: ASCOM

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