"A P1, responsável pelo estouro de casos em Manaus, pode ir para outras regiões"

Muitos países têm proibido voos com origem no Brasil. As medidas se devem à preocupação com a possível entrada de uma variante do novo coronavírus detectada em Manaus, cidade que enfrenta situação extremamente grave na pandemia da Covid-19. Ao mesmo tempo, boa parte do Brasil vive um crescimento, ainda que menor, de casos, internações e mortes nos últimos meses. Para entender se o país deve se preocupar com as novas variantes, vale a pena assistir à palestra que a professora Ester Sabino, da Faculdade de Medicina da USP, ministrou na aula inaugural da UFSJ, disponível no canal da TV UFSJ no Youtube.

Ester foi uma das cientistas que lideraram o sequenciamento genômico das primeiras cepas do novo coronavírus que chegaram ao Brasil, em tempo recorde: apenas 48 horas após a confirmação dos dois primeiros casos de Covid-19 em São Paulo. A cientista também desenvolve pesquisas sobre as novas variantes, inclusive a que, hoje, domina Manaus e se espalha pela região (a chamada P1).

Em Manaus, a partir de outubro, há um pequeno aumento do espalhamento do novo coronavírus, e em dezembro começa o crescimento forte que resultou na grave crise conhecida por todos, resultando em mais de 100 mortes por dia e na falta de oxigênio em toda a rede de saúde. As explicações para que isso tenha ocorrido numa cidade que aparentemente havia atingido a “imunidade de rebanho”, segundo Ester, são a perda da imunidade adquirida na “primeira onda” e a presença de um novo vírus que escapa dessa imunidade, e é capaz de se espalhar mais rapidamente.

“Quando sequenciamos, encontramos uma nova cepa com mais de 20 mutações, três das quais muito importantes”, explicou. Em dezembro, essa cepa representava cerca de 40% das amostras de Manaus, contra 20% da variante P2, responsável pelo crescimento de casos em outras partes do país. Em janeiro, na primeira semana, a P1 “já tomava conta de Manaus, e as outras linhagens desapareceram.” A P1, segundo a cientista, “é a responsável pelo estouro em Manaus e provavelmente irá para outras regiões.”

As rotas da aviação mostram o caminho inicial do espalhamento que o vírus pode ter. “De Manaus saem voos internacionais para destinos que já identificaram a nova cepa. O Japão foi o primeiro lugar que detectou, depois Inglaterra, Estados Unidos e outros. Aqui no Brasil o mais provável é que ela alcance primeiro São Paulo”, projetou a pesquisadora, citando também que estados vizinhos do Norte, como Rondônia e Pará, já estão vivendo aumento de casos.

“A gente tem que estar muito atento à P1, podemos ter um grande aumento de casos muito rapidamente em breve, em várias regiões do país. Temos que correr com a vacina, pelo menos para as pessoas com maior risco, a fim de tentar ao máximo diminuir a hospitalização”, alertou Ester. “Tudo o que a gente puder fazer para evitar aglomerações, melhor.”

Por que aparecem mutações capazes de fugir do sistema imune? Ester participou de estudos que mostram como a população de Manaus viveu grande epidemia na chamada primeira onda, perdendo anticorpos. “À medida que uma população tem alta taxa de exposição e aos poucos perde anticorpos, você tem o ambiente adequado para as mutações. É como se todo mundo tivesse tomando antibiótico em baixa quantidade, sendo exposto a bactérias, cada vez mais selecionando as bactérias resistentes.”

E como vai o Brasil no combate à pandemia, no investimento em Ciência? “Você tem que manter as pesquisas andando se quiser respostas rápidas. Faltam recursos, de forma organizada, muito diferente do que foi a epidemia de Aids, que deveria ser um exemplo.” Ester recordou que, naquela época, sequenciar era muito mais difícil, mas ainda assim havia uma rede de sequenciamento. “Infelizmente agora, quem viveu a epidemia de Aids, constata que não existe uma coordenação de pesquisa em nível nacional!”

É um momento, destacou, para todos “valorizarem um pouco mais a Universidade. Vamos ter vacinas produzidas aqui, os testes clínicos foram feitos aqui.”

 

As professoras Ester Sabino (USP) e Waleska Caiaffa (UFMG) ministraram a aula inaugural do segundo período remoto emergencial na UFSJ no dia 2 de fevereiro, com transmissão pelo canal da TV UFSJ no YouTube. Ester Sabino foi uma das cientistas que lideraram o sequenciamento genômico das primeiras cepas do novo coronavírus que chegaram ao Brasil, em tempo recorde: apenas 48 horas após a confirmação dos dois primeiros casos em São Paulo. Waleska Caiaffa coordena o Observatório de Saúde Urbana, vinculado à Faculdade de Medicina da UFMG. A transmissão foi mediada pela professora Clareci Cardoso, do Campus Centro-Oeste Dona Lindu (CCO/UFSJ), e teve a participação do reitor da UFSJ, professor Marcelo Pereira de Andrade.


Publicada em 04/02/2021
Fonte: ASCOM

 Voltar