"O risco de internação por Covid-19 é muito maior se você mora numa favela"

“As cidades funcionam como foco de doenças, são organismos vivos, têm mecanismos complexos, gigantescos, têm redes de conexões com muitas implicações sanitárias. É nesse cenário que devemos trabalhar o olhar sobre a pandemia”, explicou a professora Waleska Caiaffa (UFMG), durante a aula inaugural do segundo período remoto emergencial na UFSJ, transmitida pela TV UFSJ. Significa que a cidade seja necessariamente ruim? Não! Significa que não podemos compreender o que acontece durante uma pandemia sem entender, ao mesmo tempo, os mecanismos de propagação do vírus em um ambiente, como ele circula, quem ele atinge com mais gravidade.

Waleska coordena o Observatório de Saúde Urbana, da Faculdade de Medicina da UFMG, que tem atuado durante a pandemia, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, levantando e analisando dados sobre casos graves hospitalizados por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), hospitalizações e óbitos por características individuais, demográficas e clínicas, bem como a distribuição no município. “Precisamos de dados: sem dados, não temos ação”, enfatiza.

Os dados tratados pelo Observatório mostram bem que a cidade se comporta como um organismo vivo. Em Belo Horizonte, destacou a pesquisadora, “o vírus chegou de avião e se estabeleceu nas áreas mais abastadas. Tomou as avenidas arteriais da cidade e depois se instalou nos bolsões.” Hoje, entretanto, o espalhamento do novo coronavírus é generalizado. “As internações se espalham ao longo da cidade, assim como os óbitos.”

As diferenças sociais mostram que a célebre frase “estamos todos no mesmo barco” não é muito precisa quando o assunto é a pandemia atual. Em julho do ano passado, já era possível ver que a distribuição de casos graves não era homogênea, sendo pior em áreas vulneráveis socialmente. Waleska apresenta os dados: “O risco de internação é muito maior numa favela, com 20% mais chance de ser internado pela Covid-19. A densidade de óbitos também é maior.”

Mais adiante, foi possível analisar dados sobre o agravamento da doença em indivíduos com comorbidades. Novamente, os mais vulneráveis socialmente saem em desvantagem: pessoas de vilas/favelas que são internadas com Covid-19 ou síndrome respiratória aguda grave (SRAG) têm, proporcionalmente, mais diabetes, mais pneumopatias.

“Saúde urbana estuda os fatores de risco das cidades, não diz respeito apenas à doença em si, mas às condições que favoreçam ou não o aparecimento ou agravamento das doenças. Condições de moradia, do viver, que modulam a saúde, o comportamento”, esclareceu a professora. Daí surge mais um desafio nesse momento da pandemia: o olhar da doença em relação aos diversos aspectos da saúde urbana, como clima, água, moradia, transporte, densidade populacional, questões sociais.

 


As professoras Ester Sabino (USP) e Waleska Caiaffa (UFMG) ministraram a aula inaugural do segundo período remoto emergencial na UFSJ no dia 2 de fevereiro, com transmissão pelo canal da TV UFSJ no YouTube. Ester Sabino foi uma das cientistas que lideraram o sequenciamento genômico das primeiras cepas do novo coronavírus que chegaram ao Brasil, em tempo recorde: apenas 48 horas após a confirmação dos dois primeiros casos em São Paulo. Waleska Caiaffa coordena o Observatório de Saúde Urbana, vinculado à Faculdade de Medicina da UFMG. A transmissão foi mediada pela professora Clareci Cardoso, do Campus Centro-Oeste Dona Lindu (CCO/UFSJ), e teve a participação do reitor da UFSJ, professor Marcelo Pereira de Andrade.


Publicada em 04/02/2021
Fonte: ASCOM

 Voltar