Jonas Maria e a internet como ferramenta de informação e educação

Jonas Maria é um homem trans. Criador de conteúdo digital, escritor e educador nas redes sociais, ele é graduado em Letras pela UFSJ e possui hoje em seu Instagram uma legião de 124 mil seguidores. Jonas mora em São Paulo (SP), de onde abastece sua concorrida rede social com informações e reflexões em torno da transexualidade.

Discutindo a todo tempo essas questões, Jonas afirma que ter uma data de celebração da Visibilidade Trans é necessário, pois a realidade atual promove a invisibilidade. “As pessoas trans ainda estão muito à margem da sociedade, sem acesso e sem suporte”, denuncia. O Dia Nacional é, então, uma data simbólica de combate à transfobia e de valorização entre os trans.

Questionado, Jonas prefere não definir o que é ser trans. “A comunidade trans é bastante diversa e as experiências são múltiplas.” Para ele, o que se discute muito hoje é o significado da transgeneridade. “A Medicina por décadas definiu a transexualidade como uma patologia, e hoje nós queremos pensar além. Há várias questões sociais, culturais e políticas que atravessam a noção de transexualidade. Portanto, eu particularmente prefiro não estabelecer uma definição”, explica.

Sobre sua trajetória de vida, Jonas conta que, na “época de colégio”, por causa das normas de gênero, se considerava e era considerado “a esquisita” da turma. “A sociedade me dizia que eu estava fora da norma e que não correspondia às expectativas, impostas a mim por conta do meu sexo. Não havia nada de excepcional na minha aparência que justificasse as pessoas me acharem esquisita. Não havia algo extra, mas sim uma falta. Eu não era feminina o suficiente, eu não tinha os mesmos interesses que outras garotas, nem me vestia e me portava como elas”, relembra.

No Ensino Médio, ele recorda, não existia discussão feminista nas escolas, muito menos orgulho de ser LGBT. O que mudou na sua chegada ao Ensino Superior? “Eu só tive condições de mudar minha visão e ter acesso a outras possibilidades de ser e estar no mundo após entrar na Universidade, um período em que meu pensamento crítico foi estimulado e tive a sorte de esbarrar com a questão trans on-line”, declara.

Preconceito
Na visão de Jonas, muitas pessoas pensam que, quando se é trans, se odeia o próprio corpo, sendo essa a parte mais difícil. “Eu não odeio meu corpo, nem ser trans: eu odeio a transfobia”, pontua. “Nós vivemos em uma sociedade extremamente transfóbica. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, há 13 anos consecutivos. Vivemos vários tipos de violência: físicas, verbais, psicológicas.” Por outro lado, ele considera extremamente desgastante e desafiador fazer parte de um grupo social que é tão estigmatizado. “O que me sustenta, e imagino que o que sustenta várias outras pessoas trans, é o senso de comunidade que temos. Eu me sinto muito conectado e unido a outros caras trans. A troca, as conversas e a união nos fortalecem”, observa.

Jonas diz que seu período de estudos na UFSJ foi marcado por muita tranquilidade, e que a Universidade foi um marco positivo na sua trajetória. Seus professores foram muito acolhedores, não teve problemas com o uso de seu nome social, sentia-se muito feliz e agradecido por cursar a graduação que sonhou: Letras. “Na época, consegui um trabalho aos fins de semana, de modo que pude aproveitar tudo o que a Universidade tinha a me oferecer: fiz minicursos, participei de congressos, iniciação científica, Pibid. Tive excelentes professores, que estimularam meu aprendizado no decorrer do curso, sendo que muitos deles me marcaram, não só profissionalmente, mas também como pessoa.” Jonas destaca os professores Edmundo Gasparini, que o “ensinou muito sobre como construir conhecimento, como trabalhar em equipe e promover reflexões”, e José Antônio Oliveira de Resende, que o inspirou “a pensar a Didática e a estimular a paixão pelo ensino.”

Internet e educação
A muito bem-sucedida experiência de Jonas Maria com a internet, segundo ele, começou por acaso. Jonas tinha um blog no qual documentava suas experiências com hormônios, cirurgia e tudo mais em torno de sua transexualidade. “No meu Instagram, eu postava apenas alguns textos, que chamava de textículos, e compartilhava algumas leituras. Com o tempo, as pessoas foram chegando, se identificando e interagindo. Eu era muito tímido, passei anos inclusive sem literalmente falar na internet, mas depois fui mudando, as pessoas queriam saber mais e mais e fui compartilhando.” Com satisfação, diz que sempre foi muito elogiado em termos de didática e organização. “As pessoas gostavam da forma como eu me comunicava.” Hoje em dia consegue se conectar bem melhor. “É um prazer poder trocar e ter a confiança de tantas pessoas. Elas me ensinam muito.

Jonas considera que realiza um trabalho “de educador” a respeito da transexualidade na internet. A maioria das pessoas que o seguem são LGBTs e muitas são cisgêneros (que não são trans), interessados em se informar. “As pessoas confiam em mim para tirar dúvidas, falar sobre tópicos sensíveis, analisar com elas representações que envolvem personagens trans e para dar indicações de livros, canais e afins, que envolvam questões de gênero. As informações disponíveis ao grande público sobre a transexualidade são escassas, estereotipadas e, por vezes, erradas. Não temos nenhuma promoção ao respeito e à diversidade de gênero. Assim, as fontes mais seguras para alguém se educar a respeito da transexualidade são as pessoas trans.”


Publicada em 03/02/2021
Fonte: ASCOM

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