Rafael pode se mudar para Urano

É no gigante e distante planeta gelado do sistema solar que o filósofo espanhol Paul B. Preciado propõe fixem residência os dissidentes do sistema binário sexo-gênero. Em Urano seria possível viver exilado das relações de poder e das taxonomias de sexo e raça construídas socialmente, a força gravitacional da transição escrita nos corpos de seus habitantes, inscrevendo na órbita cósmica o traçado da travessia. “Uma transição de gênero é uma viagem marcada por múltiplas fronteiras”, escreve Paul.

A fronteira geográfica de Rafael Senna de Alcântara, 23 anos, “homem trans pansexual nascido em São João del-Rei, formado em Jornalismo pela UFSJ”, ainda é Belo Horizonte, onde esse fotógrafo das “subjetividades migrantes” definidas por Preciado encara uma segunda graduação em Design, na UFMG.

A fronteira planetária, todavia, já alcança horizontes. Hero era seu perfil nas comunidades fakes do Orkut, no igualmente longínquo 2010, quando seu nome feminino começava a causar uma incômoda desidentificação. Uma amiga passa a chamá-lo por um substantivo sobrecomum de gênero, hyru, ao qual resolveu agregar o from, talvez para marcar a multiplicidade de vozes que contam a passagem da transição sexual e do gênero, que podemos acompanhar no fromhyru, seu perfil no Instagram.

Foi também nas redes sociais de seu mundo hiperconectado que Rafael descobriu a transgeneridade, aos 15 anos, navegando pelo tumblr, experiência que foi fundamental para ele no começo de sua transição. Poder falar abertamente sobre uma realidade percebida como limítrofe em seu próprio corpo, sobre hormonioterapia, cirurgias, ouvir como outras pessoas lidavam com inscrições disruptivas foram pontos positivos para a compreensão que hoje tem de si. Não que não tenha havido percalços: a mudança de sexo, como lemos em Um apartamento em Urano, de Paul B. Preciado, “corre sempre o risco de cristalizar-se na construção de uma identidade normativa e excludente.”

Na trajetória de Rafael, ele se sentiu coagido, numa sociedade cisnormativa que tem “uma ideia muito estereotipada e patológica” sobre os corpos trans, a aceitar uma disforia que nunca foi sua. A relação franca que construiu com sua mãe pode ter sido decisiva para desatar esse nó. “Ela demorou bastante para me aceitar, mas hoje não erra mais meu nome e nem meus pronomes. Pelo contrário: ajudou na retificação dos meus documentos e contribui para minha terapia hormonal.”

Preconceito e ativismo
Para Rafael, apesar de as barreiras do preconceito contra pessoas transexuais apresentarem pequenas fissuras pontuais, “toda pessoa trans sofre transfobia todos os dias.” Um olhar enviesado na rua, uma pergunta invasiva, “como se a gente fosse objeto de estudo”, a fetichização do corpo trans. Quando a vaga de emprego some do nada, porque descobriram que você é trans - além dos altos números de evasão escolar, abandono familiar, homicídio, prostituição, falta de acesso à saúde - dói.

A alternativa é jamais aceitar a naturalização do preconceito, e ir amealhando um “estoque de defesas” centrado no direito à liberdade dos corpos e das subjetividades tidas como subalternas. Rafael mantém como parâmetro o aprendizado de respeito, acolhida e incentivo que recebeu ao longo do curso de Jornalismo. “Lembro da minha trajetória na UFSJ com muito carinho.”

Essa prática influenciou uma postura ativista que pode ser percebida na esfera pessoal e no campo profissional, que se baseia na compreensão das micropolíticas do poder, nas quais corpo e sexualidade assumem um papel central na mutação do capitalismo contemporâneo. “Toda pessoa trans, mesmo sem querer, acaba sendo ativista. Viver num mundo que não nos aceita é uma atitude política.”

Corpos marginais
Seguindo essa linha de pensamento e atuação, Rafael produziu, como trabalho de conclusão de curso, o fotolivro Corpos marginais - a imposição da cisnormatividade sobre os corpos trans, que traz delicados ensaios fotográficos com pessoas trans de São João del-Rei, acompanhados de relatos sobre as fronteiras entre seus corpos e as imposições da cisnormatividade sobre os corpos trans.

Ao adotar uma narrativa diversa daquela geralmente associada às vidas trans, calcadas em violência e medos, Rafael acredita estar fazendo um trabalho político, de desconstrução do conceito de marginalidade, ao incrementar um processo de aceitação de si por intermédio do olhar que insere e legitima o híbrido como lugar da errância e do interlúdio, até mesmo no corpo do próprio autor. “Quero dizer que o corpo trans é normal como qualquer corpo cisgênero. Quero ser lembrado para além do sofrimento, pela pessoa que eu sou, pelas amizades que construí.”


Publicada em 02/02/2021
Fonte: ASCOM

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