"Está faltando antropofagia para a arte contemporânea"

Publicada em 22/11/2019

Foi em 1928 que Tarsila do Amaral finalizou uma de suas telas mais conhecidas, que se tornaria símbolo da arte brasileira: o Abaporu, que significa “o que come carne humana”, no idioma tupi-guarani. Inspirado nisso, o escritor Oswald de Andrade (então marido da artista) publicou no mesmo ano o Manifesto Antropofágico, que transformou o movimento modernista, ao apresentar a ideia de que devemos devorar a arte e a cultura estrangeiras, em vez de nos fecharmos à sua influência. Décadas depois, essa concepção serviu de influência para a Tropicália, que se espelhou tanto no Modernismo quanto em Luiz Gonzaga e nos Beatles.

Para o professor, compositor e musicólogo belo-horizontino Harry Crowl, a música contemporânea brasileira tem muito a ganhar, se resgatar a antropofagia modernista. Ao longo de sua carreira, dedicou-se a pesquisar a história da música colonial do país, especialmente aquela produzida em Minas Gerais. Compôs releituras a partir de fragmentos de música da época e transmitiu todo esse conhecimento como professor da Escola de Belas Artes de Curitiba. Neste mês, Crowl foi um dos convidados da II Semana da Música UFSJ, na qual apresentou a palestra “Influências da música colonial na produção como compositor de música contemporânea”. Em outro momento, o duo formado por Sofia Leandro e Bruno Santos, docentes do Departamento de Música da UFSJ, interpretou uma de suas obras, o Concerto nº 4 para violino e percussão (em forma de via crucis sobre o nome de Marielle Franco).

Harry Crowl nasceu em Belo Horizonte, em 1958, e se mudou para os EUA aos 18 anos, para estudar Composição na Juilliard School of Music (Nova York). Foi preciso se tornar um imigrante para se interessar pela história da música brasileira: “Lá, as pessoas me perguntavam muito sobre a música de compositores brasileiros, e eu não sabia nada.” Primeiro, interessou-se por Heitor Villa-Lobos e outros compositores do século XX, e a partir daí foi “voltando no tempo”, até se encontrar na música do Brasil Colônia. Anos depois, surgiu a oportunidade de trabalhar como pesquisador de Música na Federal de Ouro Preto (Ufop), onde teve acesso aos acervos dos museus da Inconfidência e da Música (esse, em Mariana). Nesses anos, conheceu São João del-Rei, nas apresentações como músico da Orquestra Ribeiro Bastos e como participante de eventos na área de Musicologia.

Mudou-se para Curitiba, tornando-se professor de História da Música Brasileira, na Escola de Música do Paraná e na Escola de Belas Artes de Curitiba. Assumiu, em 2002, a direção artística da Orquestra Filarmônica da Universidade Federal do Estado, posto que ocupa atualmente. É também apresentador da Rádio Paraná Educativa, desde 1996.

Confira os destaques da entrevista, realizada durante o evento:

Como foi sua descoberta da música colonial?
Eu cheguei na música colonial por um caminho um pouco inusitado. Nasci em Belo Horizonte, de pai americano, e fui para os EUA aos 18 anos para estudar. Lá, as pessoas me perguntavam muito sobre a música de compositores brasileiros, e eu não sabia nada! Primeiro, me interessei por Villa-Lobos e outros compositores do século XX. E fui voltando no tempo. Por ser de Minas, sabia que existiam os compositores do período colonial, mas tinha muito pouco acesso a esse material. E tudo muito confuso, difuso. Comecei então a ler e seguir meu instinto. Até que surgiu a oportunidade de trabalhar com pesquisa na UFOP, com acesso aos museus da Inconfidência e da Música, em Mariana. Pouco tempo depois, estive em um congresso de Musicologia em São João del-Rei; conheci Anna Maria Parsons, que me incentivou a vir para cá e me aproximou da Orquestra Ribeiro Bastos. Na verdade, meu interesse maior era do ponto de vista do compositor e não do musicólogo, porque o que eu queria entender era a parte estética, formal, e tornar as obras factíveis, pois a maior parte delas está em coleções de partes, não em partituras.

Quando esta virou sua ocupação?
Em 1994, fui dar aulas em Curitiba, na Oficina de Música, quando fui convidado para ministrar curso sobre música colonial brasileira. Pude fazer trabalhos contratado pela Camerata Antiqua de Curitiba. Nesse ínterim, visitei muito os arquivos daqui, principalmente os da Lira Sanjoanense. Em Curitiba, fiz concurso para a Escola de Música do Paraná. Durante 25 anos, lecionei História da Música Brasileira, abordando desde a música portuguesa do século XVI até música contemporânea brasileira, disciplinas obrigatórias na Escola de Belas Artes. Tinha um programa de rádio, e passei a usar o espaço para divulgar a causa da música colonial e música brasileira. Em 2002, assumi a direção artística da Orquestra Filarmônica da Universidade Federal do Paraná.

Como a ferramenta do rádio serve para a divulgação da música de concerto?
É excelente, principalmente agora, que o rádio está na internet. Estou na Rádio Paraná Educativa desde 1996, à frente de Sacro e Profano, com músicas do século de XVIII; Novos Sons Brasil, que mostra o que se está fazendo em música experimental; às quartas-feiras, apresento o Clássicos da atualidade, com música dos séculos XX e XXI, brasileiras e do mundo. A resposta é boa: já fui reconhecido pela voz algumas vezes. O rádio é importante, a rádio online ajuda mais ainda.

De onde surge o senso comum de que a música de concerto, erudita, está distante da população?
É um ranço classista que vem do processo colonial, não só no Brasil, mas no mundo. A França é um país que sempre cultivou as altas artes como um campo elitista, que “não são para qualquer um”, e essa mentalidade veio com muita força para a América Latina. Já a Alemanha sempre fez o contrário, produzindo educação musical para crianças de todas as classes. E há também o aspecto da Revolução Russa: ao invés de acabarem com a arte que era cultivada pela alta aristocracia - o Balé Bolshoi, as orquestras - os russos levaram arte e cultural para toda a população, o que sempre me encantou. Porque não acredito que exista uma arte elitista; a atitude em relação a ela que a faz elitista. Toda minha vida, combati o uso da arte como instrumento de opressão. Os concertos da Orquestra Filarmônica da UFPR são gratuitos, acontecem num auditório com capacidade para 700 pessoas. Eu falo com a plateia sobre todas as obras que tocamos, buscando um discurso direto e acessível, sem menosprezar o conhecimento das pessoas.

Como esse ranço do público com a música de concerto afeta o seu processo de criação e a própria relação com o público?
Com a internet, o espaço foi muito democratizado, e permite nichos. Com plataformas como SoundCloud, YouTube, tudo se torna acessível. Se encomendarem uma obra e me pagarem por isso, fico feliz, mas não vou ficar com picuinhas sobre direito autoral para a obra não ser ouvida por ninguém e, no final, receber R$ 100. Eu prefiro não receber nada. Então, está aberto para quem quiser ouvir. E é assim que deve ser.

Por que, mesmo com a internet, não são todos que procuram esse tipo de música?
As pessoas não consomem porque não conhecem. Eu estou cansado de ver isso. Quando você leva um concerto, seja de música contemporânea ou medieval, o resultado é sempre muito positivo. Não é dada às pessoas a oportunidade de escolha, é permanentemente imposto sobre elas através da mídia. Essa música comercial, para ser consumida e jogada fora, como entretenimento, reduz a compreensão do que é música. Se houver uma ação incisiva e organizada, é possível aumentar os nichos.

Como o senhor reagiu à notícia da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes?
Indignação completa. Um absurdo!, inaceitável no estado moderno, mesmo com todas as suas contradições. Sequer entro no mérito do posicionamento político, ela era uma vereadora eleita, fazendo o trabalho dela. Ninguém pode se calar diante disso. Eu não a conhecia, ela atuava no Rio e eu moro em Curitiba. Sempre circulei nos ambientes de esquerda e sempre me posicionei à esquerda, acho que o melhor sistema de governo é a Social Democracia. Vivi e cresci na ditadura militar e vivi a minha vida profissional na Nova República e me aposento no governo Bolsonaro. Não votei nele, não gosto dele, mas ele é o presidente e está ali para fazer a lei ser cumprida. Não deve dar desculpas, relativizar: assassinato é assassinato.

Por que é importante que os compositores brasileiros não se afastem da realidade e tratem do que acontece no dia-a-dia?
Porque a arte é um reflexo do tempo como um todo, daquilo que está à nossa volta, da nossa experiência. É a sua visão de mundo traduzida para uma linguagem abstrata. O problema é que em nosso meio há essa coisa colonialista muito forte, muitos compositores estudam fora e voltam defendendo ideias do que conheceram sem uma reflexão extra-musical mais profunda sobre isso. Há mudanças: noto que os compositores mais jovens tomam outra visão. Mesmo porque na música contemporânea nem todos vêm da música erudita, mas do rock, do jazz, da música improvisada e de outras expressões. Eles querem ampliar os seus horizontes.