A obra de Miró da Muribeca ganhou vida em São João del-Rei, na voz de David Biriguy

Publicada em 04/08/2025

Poeta performático das ruas, Miró da Muribeca foi um dos grandes nomes da poesia contemporânea de Recife. Iniciou na literatura com versos marcados pelo lirismo, mas posteriormente, seus textos passaram a refletir sobre a violência policial que experienciava cotidianamente. “Quem descobriu o azul anil?” (1985) foi seu primeiro livro, obra em que mergulha nas profundezas da alma humana, retratando as contradições da vida urbana recifense. Ele, que legitimou as ruas pernambucanas como um espaço frutífero para a arte, escreveu sobre partilhas periféricas, fazendo de seu corpo e de sua poesia sua principal maneira de estar e sobreviver ao mundo. 


Inspirado pelos versos do saudoso amigo, que faleceu em 2022, o também poeta pernambucano David Biriguy resgatou as palavras de Miró no último dia de Inverno Cultural. Em frente ao Theatro Municipal de São João del-Rei, no entardecer de domingo, 3 de agosto, David assumiu a sublime tarefa de dar voz aos escritos de “Quem descobriu o azul anil?”. O recital-homenagem, que contou com uma trilha sonora autoral composta por Gledson Lamartine, uniu as brilhantes e eternas estrofes de Miró com uma comovente e inquietante interpretação de Biriguy.


Os poetas se conheceram quando David ainda estava na escola. À convite do professor de Língua Portuguesa, Miró foi declamar poesias no colégio onde Biriguy estudava e ambos recitaram juntos algumas palavras: “Ele passou, ali, a ser minha primeira referência de poesia”, conta o artista. Desde aquele momento, os dois cultivaram uma relação de muito afeto, até o falecimento do renomado poeta recifense. “Eu decidi homenageá-lo com esse recital porque a gente teve essa convivência. Ele foi um grande amigo, além de um grande poeta e de uma grande referência. O escritor pernambucano, Marcelino Freire, disse que Miró da Muribeca me batizou na poesia”, lembra Biriguy. 

  

Essa não foi a primeira vez que David Biriguy se apresentou no Inverno Cultural. Desde 2018, momento em que procurou expandir os horizontes e divulgar seu trabalho fora de Pernambuco, o multiartista faz questão de integrar a programação do evento: “Eu vi o Inverno como uma oportunidade também de trazer meu trabalho para Minas Gerais, para São João del-Rei. E o que me motiva a vir para cá é que eu gosto desse festival, acho uma iniciativa incrível. Acho ele ainda mais especial por ser feito pela Universidade, que é um espaço de conhecimento e que promove cultura. Isso é muito bacana. Só por isso eu já viria para cá todos os anos”. 


Com versos ácidos e contundentes, Miró e David se tornaram um só naquela tarde de domingo. A performance poética transcendeu território, tempo, corpo e palavra, embrenhando-nos no âmago profundo de nossa existência.

 

Veja como foi no instagram e em fotos por Geraldo Albertacci.


Texto: Clarice Muscalu