Inverno Cultural recebe Show Andorinha e Pterodata Suíte em noite de voos altos e ecos profundos

Publicada em 04/08/2025

Como parte da programação do 35 Inverno Cultural, o Theatro Municipal de São João del-Rei recebeu em seu palco, não somente um, mas dois espetáculos cativantes. No sábado, 02 de agosto, a performance poético-sonora Pterodata Suite e o Show Andorinha convidaram o público a mergulhar na poesia e musicalidade brasileira.


Frente à uma plateia atenta e numerosa, a noite começou com o arquiteto e artista João Diniz, que ocupou o teatro com as reflexões de Pterodata. Através de paisagens sonoras e textos poéticos, a performance expandiu o que já se conhece sobre arquitetura, com a imersão dos espectadores em espaços sensoriais e imagéticos.


João Diniz é formado pela Escola de Arquitetura da UFMG, e atualmente  tem um escritório de projetos, onde dedica a maior parte de seu tempo. No entanto, a alma de artista sempre esteve presente em Diniz e não demorou para que esses dois mundos se integrassem. “Com o passar do tempo, com o interesse inicial pelas outras artes e expressões, eu fui criando uma espécie de arquitetura expandida. Então é uma arquitetura que dialoga com a poesia, com a música, com as artes visuais, com o cinema e a fotografia. Para mim, tudo isso é um trabalho de arquitetura - dos sons,  da palavra, da imagem”, explica.


Criado originalmente nos anos 2000 como um CD de música eletrônica autoral, Pterodata evoluiu para um coletivo artístico idealizado por Diniz. A proposta mistura sons digitais, intervenções acústicas, poesia e imagens para construir o que ele chama de transArquitetura polifônica. “Pterodata foi um nome que eu criei. É como se fosse um dinossauro do futuro. Existe o Pterodáctilo, e o Pterodata é o dinossauro da era digital. Nós, criadores atuais, somos dinossauros do futuro. Então, a gente criou esse coletivo, essa pessoa ampla, que acontece de várias maneiras”.


No Inverno Cultural, a proposta coletiva foi adaptada para uma apresentação solo, na qual Diniz reuniu textos autorais inéditos, obras presentes em seus livros de poesia e uma composição sonora feita a partir de criações próprias, sons ambientes e loops manipulados ao vivo. Segundo ele, “trata-se de um improviso com estrutura.”


Diniz já esteve na Cidade dos Sinos em outras ocasiões, especialmente para palestras sobre arquitetura, mas há algo em São João que o toca. “Sempre que eu venho aqui, eu fico muito emocionado, e ainda mais por estar aqui fazendo isso para vocês. Estou assim, palpitante, com o coração feliz, por ter essa oportunidade, nesse lindíssimo teatro”, conta com brilho nos olhos.


Após a imersão no mundo da poesia e dos sons, o público voltou à superfície para um novo mergulho, agora nas Águas de Março. Com seu violão, o compositor e músico Juarez Moreira se apresentou ao palco dando início ao Show Andorinha, uma homenagem aos clássicos do artista carioca Tom Jobim. Durante a noite, as notas passearam por canções que revelam o amor de Jobim pela natureza, como Andorinha e Rancho das Nuvens.


Para Juarez Moreira, Jobim é referência. Em 1995, o compositor mineiro prestou uma homenagem ao maestro ao dedicar-lhe integralmente o disco Nuvens Douradas. “Talvez eu tenha optado por fazer música pela paixão que eu tive pela música dele, por outros também, mas a música dele foi muito importante, porque reúne o lirismo, com a inteligência e a síntese do Brasil. Ele evoca o Brasil anterior, o Brasil profundo e evoca o Brasil que virá, o moderno”.


Ainda na época da graduação em Engenharia Civil, Juarez teve a oportunidade de conhecer seu ídolo, graças a Milton Nascimento, que os apresentou em 1979. Na ocasião, ele tocou para Jobim os primeiros acordes de “Nuvens Douradas”.


Já o álbum Andorinha nasceu há 5 anos. Contudo, por conta de problemas de saúde, o disco só foi lançado em fevereiro deste ano, por meio de uma lei de incentivo à cultura. “Eu tenho minhas composições e tudo, sou reconhecido por isso, mas como músico, eu aprendi a tocar vendo o Jobim, a minha pesquisa musical foi em torno dele”.


Natural de Guanhães, município do Centro-Oeste de Minas, o músico vê São João del-Rei e o Inverno Cultural como formas de resistência. “Vemos como está o mundo e todas as manifestações da extrema direita, e eu acho que, apesar disso, aqui tem história. Esse teatro tem história. Você não consegue apagar isso. E eu só estou aqui porque ninguém consegue apagar isso, então, um festival desse, é resistência”, afirma. Moreira também encontra resistência em Tom Jobim. Para ele, canções como Andorinha, Sabiá, Nuvens Douradas, Dindi e Águas de Março antecipam questões urgentes da contemporaneidade, como a crise ambiental.


Nas palavras de Juarez, estar em São João é reencontrar-se com suas origens: “Eu sou um homem do interior. Então, andar pelas ruas daqui, ver as pessoas na porta do bar, andando, conversando na rua, me traz muitas coisas do meu ser”.


Entre uma canção e outra, o violão de Moreira ganhou a companhia dod seus companheiros musicistas. Bateria, baixo e trompete se juntaram à festa, acrescentando vigor aos arranjos do compositor carioca. Quando os músicos anunciaram o fim do show, a plateia não exitou em pedir por mais. Compositor e banda retornaram aos instrumentos com gosto, para presentear o teatro lotado com mais uma canção.

 

Veja como foi no instagram da UFSJ e em fotos por Lívia Antoniazzi.


Texto: Lara Reis