Bufonas ocupam a rua com humor e crítica no Inverno Cultural
Publicada em 02/08/2025
Em uma rua sem saída do bairro Bonfim, cores vibrantes, risadas espontâneas e olhares curiosos compuseram o cenário do espetáculo Bufonas, que integrou a programação do Inverno Cultural UFSJ, na noite de sexta-feira, 1º de agosto. Com uma proposta cênica ousada e sensível, o grupo de palhaçaria feminina encantou o público com uma apresentação que mesclou humor, crítica social e liberdade criativa.
O espaço inusitado e acolhedor serviu como palco perfeito para o formato escolhido pelas artistas. Conduzido por um grupo de mulheres palhaças, o espetáculo apostou na proximidade com o público e no improviso como ferramentas de encantamento e provocação. A palhaçaria, historicamente associada a figuras masculinas, ganhou novos contornos nas mãos dessas mulheres que ocuparam o espaço com leveza, presença e sensibilidade, desconstruindo estereótipos e reafirmando a força feminina na arte do riso.
Segundo a atriz Joyce Malta, um dos maiores desafios do grupo é fazer arte em uma sociedade que nega o “criar” e o “brincar”. Para ela, o processo de criação exige imaginar “que mundo gostaríamos que existisse, se ele não fosse moldado por homens e pela lógica patriarcal”. Essas questões, para o grupo, não são apenas temáticas, mas pontos de partida para reflexão e transformação.
A atriz Débora Guimarães também destacou a importância de criar e circular com espetáculos compostos majoritariamente por mulheres. “Fazer arte com mulheres, estar em cena e viver festivais, trazendo o tema do feminismo, é muito importante para a cultura em geral. É sobre mostrar nossa existência e nosso papel artístico, deixando de lado o estereótipo de que nossos assuntos são 'mimimi'”, afirmou.
A escolha de uma via estreita e quase escondida ampliou a sensação de intimidade entre artistas e plateia. O espetáculo se desenvolveu por meio de esquetes, sem grandes estruturas cênicas, valorizando o improviso e o olhar atento às reações do público. As palhaças provocaram risos que nasciam da identificação, da surpresa e da ironia diante de situações cotidianas, criando, com delicadeza e irreverência, um diálogo poético e desconcertante.
Ao mesmo tempo que se divertiram, as Bufonas lançaram críticas certeiras à sociedade. A linguagem cômica serviu como ponte para abordar temas como o machismo, a desigualdade e os padrões impostos às mulheres. Débora também chamou atenção para um novo olhar sobre os festivais culturais, afirmando sentir falta de trocas mais profundas e da presença real nas atividades. “Hoje não conseguimos ficar e vivê-los, acabamos vindo e indo embora correndo”, explicou.
A presença das Bufonas no Inverno Cultural reafirmou o compromisso do festival com linguagens plurais, acessíveis e transformadoras. Ao ocuparem um espaço público não convencional, as artistas dissolveram as fronteiras entre palco e rua, entre artista e espectador, promovendo uma experiência coletiva e afetiva.
O espetáculo dialogou diretamente com os objetivos do festival, ao tratar de temas urgentes por meio da arte e do deboche. Propor esse deslocamento de olhar, tanto sobre a cidade quanto sobre as formas de fazer arte , reforçou a potência de eventos culturais que vão além do entretenimento.
Crianças, jovens e adultos se encantaram com a proposta. Para quem esteve presente naquela rua sem saída, ficou evidente que o riso também pode ser político e poético. E que, nas mãos das mulheres palhaças, ele se torna ainda mais potente, provocador e humano.
Veja como foi no instagram da UFSJ e em fotos por Ana Luisa Reis.
Texto: Gabriela Basto