Uma celebração da presença: 'DEFESA' emociona com linguagem híbrida e afetiva no Inverno Cultural UFSJ

Publicada em 02/08/2025

Na quinta-feira, 31, a Sala Preta do CTAN recebeu um público numeroso e envolvido para a apresentação de DEFESA, espetáculo em dois atos que promoveu uma experiência híbrida entre teatro, cinema, dança e performance. Criado por Kami Soares e Júlia Campos, com direção de Igui Leal, a montagem fez parte da 35ª edição do Inverno Cultural UFSJ e transformou o espaço em um ambiente de celebração, afeto e resistência.


Logo na chegada, o público foi surpreendido com uma imersão direta na cena: uma festa de casamento. Ao som de músicas brasileiras como Gal Costa, Tim Maia e Marina Sena, espectadores eram convidados a brindar, dançar, comer e integrar a narrativa. Essa proposta interativa marcou o primeiro ato de DEFESA, no qual não há uma separação rígida entre plateia e palco. Kami Soares define: “A gente fala que é uma peça sapatão em dois atos”.


A dramaturgia do espetáculo é fragmentada e construída a partir de cartas, vídeos, coreografias e experiências pessoais. Os elementos ficcionais e autobiográficos se entrelaçam, costurando momentos da história de um casal LGBTQIAPN+. No palco, Kami e Júlia encenam episódios marcantes da relação, como o reencontro durante o carnaval, discussões, reconciliações e até a assinatura de um contrato de divórcio, mas tudo com delicadeza, humor e profundidade emocional.


A trilha sonora é outro ponto de força da peça, evocando lembranças e sensações que amplificam o impacto da cena. Canções são usadas para pontuar momentos marcantes da relação. Júlia comenta sobre o processo de construção da obra: “Foi um processo que aconteceu na medida que a gente ia ensaiando. A gente fez experimentos pela cidade, passeava e ia construindo essa história. Já na sala de ensaio, começamos a juntar as cartas e começaram a surgir materiais audiovisuais e tudo foi se amarrando.”


Essa organicidade do processo também se refletiu na flexibilidade da encenação. Júlia explicou que: “O primeiro ato de Defesa sempre muda porque ele  tem a ver com o público. Então, cada vez que chega um público novo, algo diferente acontece.”


O segundo ato se distancia da festa inicial e mergulha com mais intensidade em questões como o significado do casamento e os desafios de uma relação homoafetiva em um país que lidera o ranking de violência contra pessoas LGBTQIAP+. Em um dos diálogos, os artistas debatem o casamento como ritual: uma forma de se afirmar, de existir publicamente e de celebrar o amor em meio às opressões.


O espetáculo termina com um vídeo das atrizes, que emociona e sintetiza a proposta: resistir através da memória, do afeto e da presença. Quando perguntado sobre a relação entre o espetáculo e o tema do festival deste ano, "Regenera!", Kami responde: “Tem super a ver com o tema, porque a gente está se propondo, no país que mais mata pessoas LGBT no mundo, a celebrar um amor, um afeto homoafetivo, sapatão, e isso tem a ver com esse movimento de regeneração.”


O espetáculo DEFESA foi só uma das muitas experiências oferecidas pela 35ª edição do Inverno Cultural UFSJ, que segue até 3 de agosto com programação gratuita em São João del-Rei, Divinópolis, Ouro Branco e Sete Lagoas. Ainda há muito por vir: oficinas, espetáculos, exposições, vivências e encontros que, assim como DEFESA, celebram a presença, os afetos e a potência de existir em comunidade.

 

Confira como foi no Instagram da UFSJ e em fotos por Mariana Bessa.