Projeto estimula canto coral e musicalização infantil

Publicada em 29/09/2023 - Fonte: ASCOM

Toda manhã de sábado no Centro Cultural da UFSJ é assim. Cerca de 25 crianças, com idade acima de 7 anos, se reúnem para os ensaios do Coral Infantojuvenil da UFSJ. Lá, sob a orientação da professora Débora Andrade (DMUSI), de monitores e músicos, a garotada tem diversas atividades, como aquecimento da voz e do corpo, exercícios respiratórios, atividades de socialização e de musicalização.

Esse grupo vocal é uma das quatro frentes de atuação do projeto de extensão Benke: corais infantojuvenis da UFSJ, no qual crianças da cidade, de escolas públicas da Colônia do Marçal e de Águas Santas, aprendem a cantar em grupo, enquanto adultos de diversos estados brasileiros estudam teoria musical pela internet.

Os peixinhos
Iniciado há menos de dois meses, o Coral Infantojuvenil da UFSJ trabalha canções como Anunciação (Alceu Valença), Os peixinhos (Tribalistas) e Quem te ensinou a nadar, do folclore brasileiro, entre outras. A seleção do repertório, segundo a professora Débora, leva em conta diversos fatores. São músicas escritas dentro da extensão vocal infantil e permitem arranjos vocais a duas vozes, embora simples, mas musicalmente interessantes para um coro iniciante. Além disso, as canções são curtas e apresentam movimentos melódicos que permitem à criança a descoberta de sua “voz de cabeça”, fundamental para o processo de desenvolvimento músico-vocal infantil. O repertório também possibilita ações combinadas, como o canto, a percussão corporal e a expressão plástica, com movimentos estruturados.

Débora, que rege corais infantis desde que tinha 15 anos, ressalta que o repertório é laico, respeitando a diversidade de matriz religiosa das crianças, e que procura diversificar a abordagem de diferentes estéticas e estilos musicais. “Por outro lado, tentamos conciliar o repertório midiático, muitas vezes trazido pelos participantes, com algo totalmente desconhecido, a fim de ampliar o leque de experiência musical deles”, explica a professora, graduada em Regência e Mestre em Música pela UFMG, com doutorado em Educação pela UFJF.

Cantar juntos
Para ela, o ato de cantar conecta o indivíduo com o lúdico, com o simbólico, com o prazer de ser quem se é. “Para além de aprender a ser mais musical, a utilizar saudavelmente sua voz falada e cantada, em um espaço seguro de aprendizagem – no sentido de que a criança será respeitada em suas possíveis dificuldades –, o gesto de cantar juntos, de construir coletivamente uma obra musical, buscando a excelência artística, fortalece nossa capacidade de brincar, de nos divertirmos, de emocionar o outro e a nós mesmos”, esclarece.

Adiante da democratização do ensino de música, da formação e do desenvolvimento músico-vocal de novos coros infantojuvenis – trabalho que demanda, no mínimo, dois anos para se consolidar –, Débora Andrade considera como principal finalidade a formação docente para o campo. “Entendo que essa profissionalidade docente ainda tem sido construída muito intuitivamente. Talvez, sejamos uns dos primeiros e poucos cursos universitários de Música no país a oferecer essa formação ao educador musical”, afirma, destacando a sensibilidade da professora Carla Reis, sua colega de Departamento, que promoveu a inclusão de disciplinas relativas à pedagogia coral no projeto pedagógico do curso de Licenciatura em Música da UFSJ.

Benke
O projeto Benke começou em 2014, um ano após o ingresso da professora Débora na UFSJ, quando assumiu as disciplinas Regência e pedagogia do canto coral infantil e Prática de formação: oficina pedagógica V. Ela sentia falta de um coro infantil, por meio do qual pudesse demonstrar para os alunos (e experimentar, na prática) pedagogias de desenvolvimento músico-vocal infantil e de construção de repertório. “Então propus um projeto que visava à criação de coros infantis, em instituições interessadas, e a formação de professores para a área, ou seja, estudantes da UFSJ e comunidade externa.”

Desse diálogo entre o conhecimento contemplado nas disciplinas e a execução das ações de extensão, surgiram nove projetos de Iniciação Científica. Como resultado, vieram publicações em revistas, livros e eventos científicos. “Com o tempo”, relembra, “fui fortalecendo, para mim mesma, a noção de que esse tripé ensino-pesquisa-extensão se revela num campo para a formação de professores de coros infantojuvenis. Portanto, o Benke é mais do que um projeto artístico”, reflete.

Crianças e adultos
Atualmente, o projeto tem outras ações em desenvolvimento: o Coral Infantojuvenil da UFSJ, que ensaia no Centro Cultural, com cerca de 25 crianças; as aulas-coral, ministradas na Escola Estadual Brighenti Cesare para 146 crianças e na Escola Municipal João Pio, no distrito tiradentino de Águas Santas, com a professora Mariana Rennó Jelen.

Existe também o curso on-line Introdução ao solfejo relativo, com 76 alunos de vários estados brasileiros. Essa iniciativa alfabetiza adultos, na linguagem musical, ensinando a ler e a cantar uma partitura convencional. As aulas têm uma hora de duração e acontecem via Google Meet.

Nas escolas de educação básica, ensinam turmas dos anos iniciais do ensino fundamental, do 1º ao 5º ano. São 50 minutos semanais de aula para cada turma. Por sua vez, o coro ifantojuvenil da UFSJ reúne crianças de várias escolas, durante uma hora, aos sábados, pela manhã.

Pais, voluntários e bolsistas
Para dar conta de projeto tão abrangente, a coordenação tem se valido da participação de pais, músicos voluntários e bolsistas de extensão. Alguns pais costumam assistir aos ensaios. À medida em que descobrem pessoas da comunidade que tocam algum instrumento, elas são convidadas a fazer parte da equipe de músicos. Numa apresentação dos alunos da Escola Brighenti Cesare, cinco professoras do ensino fundamental participaram tocando metalofones. Alguns pais participam dos ensaios, mas a coordenadora reconhece que é preciso, futuramente, incrementar a participação das famílias.

Por outro lado, o projeto conta com uma equipe muito dedicada e comprometida com a proposta, garante a professora Débora. A bolsista Lorena Vaz Gonçalves atua em praticamente todas as ações. Natanael Silva, estudante de Música, acompanha o Coral ao violão na escola da Colônia.

Violão e berimbau
Também no Coral Infantojuvenil da UFSJ, a estudante de música, Camila Héllen de Ávila, toca violão e o berimbau fica a cargo do capoeirista e artista sãojoanense, Jailson dos Santos Pinto. “Um dia, ele chegou no meio do ensaio, enquanto cantávamos Anunciação. Eu fiz um gesto convidando-o para nos acompanhar e, ao final, disse: “agora, você é nosso!” A música ganhou outra vida com a participação dele! Além de ser nosso percussionista, o Jailson vai ajudar no trabalho de expressão corporal das crianças.”

A equipe de regentes assistentes conta com a bolsista Lorena Gonçalves, a aluna Carolina Vilela Rodrigues e a professora Mariana Rennó Jelen que, por iniciativa própria, assumiu a atividade na Escola Municipal João Pio, em Águas Santas.

Outros dois estudantes de Música, Jonathan Wesley e Roberth Aparecido, foram fundamentais para a construção do grupo atual de crianças no Coral Infantojuvenil da UFSJ. “Por semanas, eles visitaram duas escolas de educação básica para divulgar e recolher inscrições das crianças interessadas.”

Já o curso de solfejo é ministrado pelos alunos Flávio Marcionílio, Farlen Rodrigues e Camila Carla, matriculados nessa disciplina.

A longo prazo
Diferente do que se costuma fazer na tradição coral, o Projeto Benke não realiza seleção vocal entre as crianças, o que ocorre por dois motivos: “acreditarmos que todas elas podem aprender a cantar, cada uma no seu próprio tempo. Essa prática tem, historicamente, marcado as pessoas de maneira negativa, afastando-as de uma experiência musical, às vezes, por toda uma vida”, analisa Débora.

Nesse sentido, é importante, ainda de acordo com Débora, que a comunidade entenda que resultados artísticos são conquistados a longo prazo. “A descontinuidade do trabalho, decorrente da evasão, compromete o amadurecimento musical do grupo. Na esperança de que, em breve, voltaremos a participar de festivais e de encontros de corais, convidamos os responsáveis a permanecerem firmes conosco.”

Como participar
Podem participar do Coral Infantojuvenil da UFSJ todas as crianças interessadas na proposta, a partir dos 7 anos de idade, momento em que as pregas vocais já podem ser submetidas a um trabalho técnico. Se você quer cantar nesse projeto, basta comparecer ao ensaio, acompanhado de um responsável, para a realização do cadastro pessoal. As inscrições também podem ser feitas por meio deste formulário eletrônico.