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“Produto natural que não faz mal não existe”

Aluna do Campus Dona Lindu analisa composição química de fitoterápico

Quem, algum dia, não teve as convicções abaladas diante de um remédio que prometia milagres sem danos colaterais aparentes para aquela dor que não passa, aquele corpo-capa-de-revista-sem-Photoshop ou aquela insistente depressão: atire a primeira pedra. O porquê de as pessoas estarem dispostas a arriscar a saúde por falsas promessas de cura, geralmente embasadas em formulações sem registros ou controle, é uma das perguntas a que o professor João Máximo de Siqueira vem tentando responder ao longo de sua carreira como estudioso das potencialidades medicamentosas de produtos de origem natural.

 

Nos projetos que orienta no Campus Centro-Oeste Dona Lindu (CCO), onde é docente do curso de Farmácia, o pesquisador deixa claro para os alunos que a advertência expressa no título desta matéria é incontestável. As plantas medicinais têm, em sua constituição, substâncias químicas que podem ser benéficas ou maléficas. “Não existe planta medicinal milagrosa. Se o resultado prometido vier muito rápido, desconfie. Pode ser indício de adulterações que certamente vão trazer efeitos indesejáveis”, alerta João Máximo.

 

A desinformação está na raiz dos problemas relacionados aos modismos que colocam os “falsos naturais” na ordem do dia. Os alunos envolvidos na pesquisa que está investigando o controle de qualidade das espécies vegetais mais vendidas em Divinópolis analisaram a constituição química de um produto denominado Harp 100 mg, apresentado como panaceia para todos os males decorrentes de artrite e artrose, devido a uma decantada propriedade antiinflamatória natural. Mesmo sem autorização da Anvisa, o produto continuava sendo comercializado clandestinamente, sem referências que esclarecessem composição e mecanismos de ação. Na internet, clientes relatam o péssimo atendimento que receberam ao tentar obter informações detalhadas sobre o produto, que ofereceu melhora significativa nos primeiros meses de usos à custa de aumento de peso e fortes dores estomacais. Análises preliminares no Laboratório de Química do CCO, posteriormente confirmadas por procedimentos modernos, confirmaram as piores suspeitas: o Harp 100 mg nada tem de natural. Trata-se da mistura de duas substâncias sintéticas, uma delas é um antiinflamatório potente, e a outra está em averiguação.

 

Os exemplos são constantes, e a frequência com que os falsos naturais são livremente anunciados, até que a sanção chegue, é espantosa. Basta lembrar a disseminação da Caralluma Fimbriata como o mais novo milagre para “um emagrecimento rápido e seguro”, conforme apregoava um site com a naturalidade de quem vende algodão doce em parque de diversões. “Fórmulas mágicas de emagrecimento são uma das falsificações mais comuns”, afirma João Máximo. “Geralmente contêm anfetamínicos em sua formulação, o que provoca taquicardia, irritabilidade, inapetência e hipertensão.”

 

Credibilidade

Nem só de más notícias vive o projeto de monitoramento da qualidade das plantas medicinais comercializadas em Divinópolis e região. Os produtos disponíveis nas farmácias de manipulação são de melhor qualidade do que os encontrados em outros estabelecimentos, o que pode estar relacionado às exigências legais de funcionamento daquelas farmácias, como a contratação de um farmacêutico, que responde pelos medicamentos vendidos.

 

Nas farmácias regulamentadas, os pesquisadores puderam constatar que os antidepressivos à base da erva-de-são-joão continham os bioativos provenientes da planta importada da Europa, de onde é originária. Em outros pontos de venda, foi encontrada uma espécie nativa que não tem efeito antidepressivo nenhum.

 

Plantas medicinais é um tema vasto, que faz parte da cultura ancestral do homem. Geralmente, as mais procuradas são mais passíveis de falsificação. Não só pela fiscalização deficitária, mas também pelo impulso humano de buscar soluções para problemas de saúde aflitivos. Segundo João Máximo, um grande problema é que os fitoterápicos têm mais propriedades preventivas que curativas, o que faz da venda indiscriminada um ato criminoso. As plantas medicinais, graças à sua constituição química ampla, fornecem ao homem um grande número de “protótipos” que, transformados, dão origem ou passam a constituir outros medicamentos. O acido acetilsalicílico, o popular AAS, é um analgésico e antiinflamatório proveniente de um modelo retirado da planta Sabugueiro.

 

A adulteração e falsificação de produtos farmacêuticos não é exclusividade brasileira. A literatura consultada para fundamentação do projeto citado é, em grande parte, estrangeira.

 

 

Saiba mais

  • Centro de Informações sobre Medicamentos, Plantas Medicinais e Tóxicas: www.ufsj.edu.br/cofar/cimplamt.php
  • Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos: portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/Decreto_Fito.pdf


Publicada em 16/05/2011
Fonte: ASCOM

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